Crítica à idolatria da verdade

Artigo do sócio Luiz Eduardo Cani, publicado nos Cadernos Zygmunt Bauman.

Resumo: Alguns mitos modernos levam a uma valorização injustificada e injustificável de diversas ideias, coisas e pessoas. O culto a tudo isso está inserido nessa dimensão a qual Nietzsche denunciou e, posteriormente, Vilém Flusser chamou de idolatria. Analisamos aqui uma das ideias cultuadas: a verdade.

Palavras-chave: Ídolo. Ideia. Abstração. Metáfora. Figura de linguagem.

Abstract: Some modern myths lead to an unjustified and unjustifiable valuation of several ideas, things and people. The cult of all this is inserted in this dimension which Nietzsche denounced and, later, Vilém Flusser called idolatry. Here we analyze one of the worshiped ideas: the truth.

Keywords: Idol. Idea. Abstraction. Metaphor. Figure of speech.

1 PREÂMBULO

O tema da “idolatria” não é novo. Não é um “tema religioso”, embora frequentemente pensemos os ídolos de maneira integrada às imagens religiosas. Isso pode ser consequência das raízes teológicas de todo conhecimento, apesar da transformação operada durante a secularização[1]. Podemos dar como exemplo desta raiz teológica do nosso pensamento a forma como certos pensadores associam o fenômeno do consumismo como uma espécie de seita religiosa, tais quais Jean Baudrillard[2] o faz. De todo modo, há uma multiplicidade de incidências idolátricas nos mais diversos aspectos da vida, cuja explicação é irredutível à religião.

Neste texto, faremos uma crítica a um ídolo que muitas vezes passa despercebido: a verdade – ou, como alguns preferem, a Verdade. Erigir a verdade, e mormente a Verdade, em ídolo atende a uma multiplicidade de finalidades e estratégias, mas há um interesse em comum: eliminar a diferença ou, quando é necessário tolerar, neutralizar críticas. Vulgata autorreferencial, permite, em última análise, dizer que algo “é, porque é!” E, assim, nada mais pode ser dito ou, no mínimo, de nada adianta dizer algo a mais.

O ensaio aqui proposto será constituído em três partes. Na primeira, teceremos algumas notas anti-idolátricas que visam mostrar a passagem do ídolo à idolatria – talvez possamos dizer: do mito ao rito. Na segunda, retomaremos alguns pontos da análise nietzschiana acerca da verdade. Na terceira, pretendemos desenhar um alvo na verdade, e na Verdade, para que alguém possa, usando o martelo de Nietzsche ou outra ferramenta, destruir o ídolo e abrir o caminho para que outro ídolo não seja colocado naquele lugar.

2 DA EREÇÃO DO ÍDOLO À IDOLATRIA: NOTAS ANTI-IDOLÁTRICAS

Iniciaremos este tópico com a abordagem do texto de Vilém Flusser para depois passar ao texto de Nietzsche. Isso porque Flusser teve preocupação com a organização das ideias e aprofundou a análise. Nietzsche, por outro lado, utilizando aforismos, legou algumas pistas, que tentaremos seguir – com o risco de nos perder –, para o estudo do tema.

Flusser elaborou um glossário para facilitar a compreensão da Filosofia da caixa preta. Desse texto interessam-nos seis termos que se cruzam: ideia, idolatria, imagem, imaginação, texto e textolatria. Ideia é “elemento constitutivo da imagem”. Idolatria é “incapacidade de decifrar os significados da ideia, não obstante a capacidade de lê-la, portanto, adoração da imagem”. Imagem é “superfície significante na qual as ideias se inter-relacionam magicamente”. Imaginação é “capacidade de compor e decifrar imagens”. Texto é signo “da escrita em linhas”. Textolatria é “incapacidade de decifrar conceitos nos signos de um texto, não obstante a capacidade de lê-los, portanto, adoração ao texto”[3].

A partir daí, pôde identificar um duplo movimento da imaginação: por um lado, abstração de duas das quatro dimensões espaço-temporais, por outro, reconstrução das duas dimensões abstraídas para formar uma imagem com as dimensões do plano (largura e altura)[4]. As imagens não são cifras com significados inequívocos. Admitem espaço interpretativo dos símbolos. Portanto, são conotativas, não denotativas. Não “eternizam eventos”, os substituem por cenas. Operam uma mediação entre humano e mundo, representam o mundo. Surgem com a pretensão de criar mapas, “mas passam a ser biombos”, pois, em vez de o humano servir-se das imagens em função do mundo, “passa a viver em função das imagens”[5].

Idolatria é essa inversão em função das imagens, uma alienação do humano em relação aos próprios instrumentos. Então idólatra é quem vive magicamente essa inversão. A imaginação se torna alucinação e o humano resta incapaz de decifrar as imagens e de perceber que servem aos instrumentos, ao invés de se servirem dos instrumentos. As dimensões abstraídas não são reconstituídas[6]. Mais do que isso, o idólatra esquece-se de que foram abstraídas.

Do mundo à imagem abstrata, processo que nada tem a ver com a construção de ídolos. Não há ligação direta entre imagens e mundo, senão referência, indicação, apontamento. As coisas não entram nas palavras, nem as palavras nas coisas[7]. A construção de imagens, no sentido proposto por Flusser, é incontornável, pois inerente ao conhecimento. Ídolos são erigidos a partir do momento em que a imagem passa a substituir a coisa.

De caminho construído para referir a “coisa” passamos à construção do ídolo como “coisa mesma”, por assim dizer. Esse processo talvez só possa ser separado da idolatria como pura abstração explicativa, pois a ereção do ídolo já é idolatria. Depois de erigido, o ídolo não se sustenta sozinho. É necessário cultuá-lo. É nesse sentido e como derivação de um delírio de Totalidade que a idolatria pode ser pensada como uma doença do intelecto[8].

3 SOBRE A VERDADE E A MENTIRA NO SENTIDO EXTRAMORAL: APONTAMENTOS NIETZSCHIANOS

A crítica nietzschiana à verdade é, em alguma medida, também uma crítica às diversas tonalidades da ontologia essencialista: aquilo que se chama de substância e/ou de essência não é imóvel e imutável[9]; o que hoje é, não necessariamente foi no passado e, muito menos, continuará a ser indefinidamente no futuro[10]. A mutabilidade, portanto, é inerente ao ser, e tentativas de tornar estático algo dessa ordem equivale a negar o próprio ser e todas as suas potencialidades.

A preocupação com a verdade aparece na centralidade dos saberes – ou, pelo menos, de muitas das perspectivas de cada saber. E isso na medida em que falar em nome da verdade, sobretudo a partir do antropocentrismo, é falar em nome de uma das forças mais poderosas depois do declínio dos pressupostos divinos do teocentrismo. Nietzsche sentenciou a morte dos deuses, mas sua permanência em estado de putrefação[11]. Agamben, por outro lado, aposta na metamorfose de Deus em dinheiro[12]. Nós, por fim, preferimos ficar com Nietzsche e apostar no preenchimento do lugar das divindades com outras “coisas” (rectius: ídolos), dentre as quais a verdade pretensamente imanente.

Essa centralidade tem a ver, dentre outras coisas, com a ciência moderna e a aposta nas potencialidades de se dizer a verdade mundana por meio de pesquisas que pressupõem a aplicação de métodos reconhecidos por um grupo de indivíduos que integram uma comunidade científica. Dito de outro modo, a verdade seria fruto da aplicação correta de cálculos!?[13] Também a ciência é, não raro, erigida à condição de ídolo – e arrebanha multidões de idólatras[14]

Mas, se a verdade obtida por meio de métodos científicos e/ou procedimentos judiciários não é a substância e nem a essência de algo, o que poderia ser? Nietzsche é categórico: o que chamamos de verdade não é mais do que um exército móvel de figuras de linguagem[15], sobretudo de metáforas. Não por acaso citamos anteriormente Foucault, pois a concepção nietzschiana[16] é pressuposta por Foucault para quem a verdade é resultado dos jogos de verdade, não a coisa mesma ou coisa em si. Podemos dizer, então, que a linguagem é um sintoma, pois ela leva à superfície aquilo que estava, subterraneamente, afligindo determinado grupo dada a sua relação com os seus falantes, conforme aponta Eder Corbanezi: “Nesse sentido, uma linguagem, segundo a concepção relacional que dela tem Nietzsche, é relativa porque sempre se reporta aos que a instituíram: ela não tem valor em si, mas como sintoma”.[17] É tanto das figuras de linguagem quanto por meio dessas que falamos sobre as coisas mundanas: falamos das relações e dos acidentes, das transformações e do mutável – e só. E, para falar, precisamos obedecer a algumas regras[18], assim como para produzir conhecimentos científicos.

Todo o conhecimento é formado em uma luta entre o que há de mais generalizante e o que há de mais particular: uma abstração das coisas mundanas e algo que visa uma dominação de indivíduos e de coisas[19]. Noutros termos, para “conhecer” é preciso reduzir o mundo aquilo que pode ser representado na, da e pela linguagem. Dessa necessidade derivam os conceitos e as categorias, que visam reduzir a quantidade de palavras necessárias para a representação. Assim, tenta-se dominar o mundo e, nessa luta pelo que há de mais particular, também se inserem as lutas entre indivíduos em nome da “melhor explicação”.

Por isso Nietzsche afirmou categoricamente que primeiro criamos as representações, depois esquecemo-nos delas para podermo-nos referir a essas como a verdade – tudo para chegar a um sentimento de verdade[20]. E essas representações nada mais são do que construções “erguidas sobre fundamentos instáveis e como que sobre água corrente um domo de conceitos infinitamente complicado”[21]. E se a “verdade” pode ser sempre mostrada pelo acerto, não é porque seja a verdade, mas porque procuramos – e encontramos – justo aquilo que acabamos de esconder[22].

Tudo isso conduz a duas possíveis conclusões: ou a verdade é mundana e não pode ser acessada por meio da linguagem; ou a verdade é construída na linguagem e não possui nada que se aproxime de uma ancoragem mundana. Independente da opção que se fizer, desconsiderar que se trata de uma impossibilidade na relação entre palavras e coisas é a via de acesso para a idolatria da verdade.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS – APONTANDO O ALVO: DO ÍDOLO VERDADE À IDOLATRIA DA VERDADE, UM OBSTÁCULO ANTIFILOSÓFICO A DESTRUIR

A idolatria é, portanto, um processo de mortificação da diferença, um projeto de extermínio ou, no mínimo, de neutralização do outro[23] – outra verdade ou verdade do outro[24]. No caso específico da verdade, esse processo se dá quando nos esquecemos de esconder na razão algo e depois buscar lá justo o que foi esquecido – e encontrá-lo. O alvo, então, está apontado. Identificado, há como que um desenho, uma pintura. Resta o ataque!

O martelo de Nietzsche seria adequado, tanto como diapasão para constatar as vísceras infladas e ocas da verdade[25], quanto como arma para destruir os pés de barro dessa fictícia estátua de bronze[26]. A proposta nietzschiana de transvaloração dos valores cai muito bem em relação à verdade, pois, justo porque precisarmos saber para viver (e saber é poder, como Foucault deixou claro), é preciso ter em mente os limites e a finitude do que sabemos.

Dito de outro modo, concordamos com a crítica nietzschiana à hierarquização dos valores da verdade e da aparência: é apenas um preconceito moral[27]. É só do aparente que tratamos e falamos, mas é justo a aparência que negamos a todo momento. A verdade é a enganação que nós mesmos criamos e da qual não queremos lembrar. O motivo é claro: conforto psíquico da crença. Mas a mesma estratégia pode servir para manipulação. Nessa dimensão é criado um obstáculo antifilosófico, uma barreira à reflexão, e também à condição de possibilidade para a ética.

Afirmamos, em conjunto com Nietzsche, que a verdade não pode ser definida pela linguagem pois esta é apenas a transposição de metáforas de uma determinada ordem para outra ordem. Para o pensador alemão, a linguagem constrói conceitos a partir de mutações de metáfora. Vamos ilustrar para tal conteúdo ficar mais claro. Temos o estímulo nervoso ao ver um “gato”, e logo em seguida esse “gato” é abstraído e representado em uma forma, uma imagem. Eis a primeira transposição. Uma segunda transposição ocorre quando a imagem vira som, isto é, quando “gato” é abstraído não só como imagem mas também como palavra. Podemos perceber, assim, que estímulo mental, imagem e som constituem esferas distintas, mas que são reduzidos a uma unidade, o conceito:

De antemão, um estímulo nervoso, primeiramente transposto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por seu turno, remodelada num som! Segunda metáfora. E, a cada vez, um completa sobressalto de esferas em direção a uma outra totalmente diferente e nova.[28]

É pouco duvidoso que o conforto de um mundo ilusório pode reduzir o peso das decepções mundanas. Não fosse assim, talvez as revoltas fossem generalizadas – e deveriam mesmo ser. Empulhações acalmam os ânimos e ajudam a manipular indivíduos para formar rebanhos – ainda um tema moral[29]. Mas a diferença grita. O outro, o chegante, não pode ser neutralizado. As leis, esses pretextos de destruição de diferentes[30], não podem ser apresentadas como expressões da verdade mundana – e muito menos divina.

Podemos apontar a metáfora como estratégia para criticar esta idolatria que paralisa o ser; isto é, usarmos as armas da verdade contra ela mesma em direção a uma transvaloração. Concordamos com Paula Braga, que afirma a possibilidade de uma metaforização que não vira os conceitos e os define de forma limitadora, e sim que os embaralha:

Mas serão todas as metáforas gastas e sem força sensível, meras pedras do grande edifício dos conceitos? O mesmo texto parece indicar que não, e, com efeito, aponta para a possibilidade da metáfora-andaime criadora, que, ao invés de virar conceito, revira os conceitos.[31]

É contra tudo isso que nos insurgimos aqui – e na forma de paródia[32] porque é possível levar algo a sério sem o ranço da seriedade[33] tão característico de uma republiqueta de bacharéis. Não formulamos apenas uma crítica às manipulações do que é chamado de verdade, mas também um manifesto a favor das diferenças. Uma martelada nos monumentos da verdade com todos os discursos de enganação que só servem para reproduzir o status quo de uma sociedade hierarquizada, racista, xenófoba, machista, sexista, misógina, homofóbica, gordofóbica e neoliberal que tem como heróis um punhado de capitães do mato e seus rábulas que agem em nome da verdade enquanto propagam fake news afirmando serem verdades – agem por meio da aparência, em nome da verdade.

Agem em prol de uma verdade que aprisiona, sufoca e mata. Nietzsche afirmou que a verdade surge como uma forma de “contrato social” que permite a exclusão daqueles tidos por mentirosos mesmo que o homem honesto seja tão mentiroso quanto o primeiro. Lembremos de como o artista era visto por Platão: como um mentiroso, já que faz meras cópias das ideias imutáveis e eternas. Propomos neste nosso ensaio que joguemos com a verdade, tal qual o artista o faz com as formas, para podermos defender uma comunidade da diferença – aberta às multiplicidades – e criticar o status quo que mantém 99% da população mundial em situação de abjeção. Façamos uma paródia disto tudo, e emitamos uma risada soberana tal qual Georges Bataille, uma risada que nos liberte da escravidão da verdade: “Rir do universo liberava minha vida. Escapo da gravidade rindo. Recuso-me à tradução intelectual desse riso: a escravidão recomeçaria a partir daí.”[34]

REFERÊNCIAS

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SALVÀ, Peppe. “Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro” | Entrevista com Giorgio Agamben. Blog da Boitempo, São Paulo, 31 ago. 2012. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2012/08/31/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben. Acesso em: 04 dez. 2020.

[1] “A secularização é uma forma de remoção que mantém intactas as forças, que se restringe a deslocar de um lugar a outro. Assim, a secularização política de conceitos teológicos (a transcendência de Deus como paradigma do poder soberano) limita-se a transmutar a monarquia celeste em monarquia terrena, deixando, porém, intacto o seu poder.” AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Trad. Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 60-61.

[2] Como é o caso, neste trecho, quando ele compara a atitude do homem ocidental para com a mercadoria da mesma forma que os povos indígenas reagiam às tecnologias para além de seu contexto (o culto do cargueiro): “os povos ‘subdesenvolvidos’ vivem a ‘ajuda’ ocidental como algo de esperado e de natural, que desde há muito lhes era devido. Consideram-na como medicina mágica – sem relação com a história, a técnica, o progresso contínuo e o mercado mundial. Mas, se olharmos mais de perto, os miraculados ocidentais do crescimento não se comportarão colectivamente de maneira idêntica? A massa dos consumidores não viverá a profusão como efeito da natureza, cercada como está pelos fantasmas da terra da promissão e persuadida pela ladainha publicitária de que tudo lhe será previamente dado, tendo ademais um direito legítimo e inalienável sobre a profusão? A boa fé no consumo surge como elemento novo: as novas gerações são doravante os herdeiros, herdando não só os bens, mas o direito natural à abundância.” (BAUDRILLARD, Jean. A Sociedade do Consumo. Trad. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 1995, p. 22-23.)

[3] FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma filosofia da fotografia. São Paulo: É Realizações, 2018, p. 11 e 13.

[4] Tendo em vista o período em que o livro foi escrito (1983), Flusser se referiu apenas às imagens bidimensionais. Mas isso não invalida a importância das reflexões.

[5] FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta, p. 15-17.

[6] FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta, p. 17-18.

[7] Nessa dimensão Foucault insinuou um importante pressuposto: “O verdadeiro não se define por uma conformidade ou uma forma comum, nem por uma correspondência entre as duas formas. Há disjunção entre falar e ver, entre o visível e o enunciável: ‘o que se vê não se aloja mais no que se diz’, e inversamente. A conjunção é impossível por duas razões: o enunciado tem seu próprio objeto correlativo, que não é uma proposição a designar um estado de coisas ou um objeto visível, como desejaria a lógica; mas o visível não é tampouco um sentido mudo, um significado de força que se atualizaria na linguagem, como desejaria a fenomenologia. O arquivo, o audiovisual é disjuntivo. […] Entre os dois, há um perpétuo corte irracional.” DELEUZE, Gilles. Foucault. Trad. Claudia Sant’Anna Martins. São Paulo: Brasiliense, 2019, p. 68-69. “O conhecimento só pode ser uma violação das coisas a conhecer e não percepção, reconhecimento, identificação delas ou com elas.” FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Conferências proferidas na PUC-Rio do Michel Foucault em 1973. Trad. Eduardo Jardim e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Nau, 2013, p. 27.

[8] “inverter a marcha habitual do trabalho do pensamento consiste em se imunizar contra o automatismo do que vulgarmente se chama ‘pensamento’, que recai, ao fim e ao cabo, ao longo de um tempo ressecado e espoliado de sua qualidade, um tempo fixo caricatural, em um universo de obviedades que se naturalizam e se petrificam, postando-se como matéria-prima do que, ao longo da inércia da imobilidade, acabará por se constituir em um delírio de Totalidade, ou seja, em uma expressão particular qualquer de idolatria, adoração de sua imobilidade imagética e de sua rigidez que reduz o mundo a um universo desértico povoado pela doença do intelecto e pelas ações necroéticas que derivam dessa doença.” SOUZA, Ricardo Timm de. Crítica da razão idolátrica: Textos inéditos para uso exclusivo no Seminário do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS 2020/II, p. 168.

[9] “Porque passa ao largo dessa profusão de formas e figuras, a compressão essencialista da linguagem revela-se, desde logo, uma fonte inesgotável de auto-enganos. Tomando acidentes por substâncias e relações por essências, ela transpõe e inverte as categorias que ela mesma se dedica a engendrar; substituindo coisas por significados, faz crer que as designações e as coisas se recobrem e, com isso, ilude quem nela procura fiar-se, condicionando o homem ao hábito gramatical de interpretar a realidade vendo nela apenas sujeitos e predicados, incita-o a postular a existência de um autor por detrás de toda ação; enquadrando aquilo que os seres humanos pensam e falam nos padrões causalidade, tal concepção os impele, em suma, a negar o caráter processual da existência.” BARROS, Fernando Moraes. Introdução. In: NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira. Trad. Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008, p. 16-17.

[10] “É o tempo que permite a realidade, e, sem tempo, não há realidade – a não ser como fantasmagoria essencialista, celeremente atropelada pelas intempéries do que realmente ocorre, pelo que realmente interessa na ordem dos acontecimentos. […] As coisas não acontecem ‘no’ tempo; é o tempo que acontece, e esse acontecer significa o acontecer das coisas.” SOUZA, Ricardo Timm de. Crítica da razão idolátrica, p. 134-135.

[11] “Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!” NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 138.

[12] “Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.” SALVÀ, Peppe. “Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro” | Entrevista com Giorgio Agamben. Blog da Boitempo, São Paulo, 31 ago. 2012. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2012/08/31/deus-nao-morreu-ele-tornou-se-dinheiro-entrevista-com-giorgio-agamben. Acesso em: 04 dez. 2020.

[13] “Ninguém vê que a ciência é ela mesma afásica. Bastaria que ela pronunciasse sua ausência de fundamentos e nenhuma realidade subsistiria – daí lhe vem um poder que a leva a calcular: é essa sua decisão que inventa a realidade. Ela calcula para não falar, sob pena de cair no vazio.” KLOSSOWSKI, Pierre. Nietzsche e o círculo vicioso. Trad. Hortência S. Lancastre. Rio de Janeiro: Pazulin, 2000, p. 20.

[14] “não é a forma que determina o conteúdo, mas o contrário: é porque se dá o conteúdo – qualquer que seja – que a forma é necessária. Formas determinando conteúdos à sua imagem e semelhança não passam de destilações de fantasmagorias intelectuais e servem a jogos narcisistas-projetivos.” SOUZA, Ricardo Timm de. Crítica da razão idolátrica, p. 143.

[15] “O que é, pois, a verdade? Um exército móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, numa palavra, uma soma de relações humanas que foram realçadas poética e retoricamente, transpostas e adornadas, e que, após uma longa utilização, parecem a um povo consolidadas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que elas assim o são, metáforas que se tornaram desgastadas e sem força sensível, moedas que perderam seu troquel e a agora são levadas em conta apenas como metal, e não mais como moedas.” NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira. Trad. Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2008, p. 36.

[16] “A mim me parece, em todo caso, que a percepção correta – que significaria a expressão adequada de um objeto no sujeito – é uma contraditória absurdidade: pois, entre duas esferas absolutamente diferentes tais como entre sujeito e objeto não vigora nenhuma causalidade, nenhuma exatidão, nenhuma expressão, mas, acima de tudo, uma relação estética, digo, uma transposição sugestiva, uma tradução balbuciante para uma língua totalmente estranha.” NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira, p. 41.

[17] CORBANEZI, Eder. Sobre a concepção relacional de linguagem em Nietzsche. Cad. Nietzsche, São Paulo, v. 1, n. 34, Junho 2014, p. 179.

[18] “É sempre possível dizer o verdadeiro no espaço de uma exterioridade selvagem; mas não nos encontramos no verdadeiro senão obedecendo às regras de uma ‘polícia’ discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos. A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso. Ela lhe fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente das regras.” FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Trad. Laura Fraga de Almeida Sampaio. 24. ed. São Paulo: Loyola, 2014, p. 34.

[19] “encontramos em Nietzsche a ideia, que volta constantemente, de que o conhecimento é ao mesmo tempo o que há de mais generalizante e de mais particular. O conhecimento esquematiza, ignora as diferenças, assimila as coisas entre si, e isto sem nenhum fundamento em verdade. Devido a isso, o conhecimento é sempre um desconhecimento. Por outro lado, é sempre algo que visa, maldosa, insidiosa e agressivamente, indivíduos, coisas, situações. Só há conhecimento na medida em que, entre o homem e o que ele conhece, se estabelece, se trama algo como uma luta singular, um tête-à-tête, um duelo. Há sempre no conhecimento alguma coisa que é da ordem do duelo e que faz com que ele seja sempre singular.” FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. 4. ed. Trad. Eduardo Jardim e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Nau, 2013, p. 33.

[20] “O homem decerto se esquece que é assim que as coisas se lhe apresentam; ele mente, pois, da maneira indicada, inconscientemente e conforme hábitos seculares – e precisamente por meio dessa inconsciência, justamente mediante esse esquecer-se, atinge o sentimento da verdade. No sentimento de estar obrigado a indicar uma coisa como vermelha, outra como fria e uma terceira como muda, sobrevém uma emoção moral atinente à verdade: a partir da contraposição ao mentiroso, àquele em quem ninguém confia e que todos excluem, o homem demonstra para si o que há de venerável, confiável e útil na verdade. Como ser racional, põe seu agir sob o império das abstrações: já não tolera mais ser arrastado por impressões repentinas, pelas intuições, sendo que universaliza, antes, todas essas impressões em conceitos mais desbotados e frios, para neles atrelar o veículo de seu viver e agir.” NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira, p. 37.

[21] NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira, p. 39.

[22] “cumpre admirá-lo [o homem] muito, mas não somente por causa de seu impulso à verdade, ao conhecimento puro das coisas. Quando alguém esconde algo detrás de um arbusto, volta a procurá-lo justamente lá onde o escondeu e além de tudo o encontra, não há muito do que se vangloriar nesse procurar e encontrar: é assim que se dá com o procurar e encontrar da ‘verdade’ no interior do domínio da razão.” NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira, p. 39

[23] “A sua intuição fundamental, a sua descoberta, que habita cada vírgula de seu pensamento nas mais diferentes órbitas e campos e que se constitui no coração de sua obra magistral, é a convicção de que uma das consequências inevitáveis da solidão enquanto expressão de Verdade, de Mundo, de Ser, é o autodevorar-se, alimentar-se finalmente de si mesmo como se alimenta do que não é ele. Idolatra-se e morre-se nesse processo de entrega total a si mesmo.” SOUZA, Ricardo Timm de. Crítica da razão idolátrica, p. 125.

[24] “Em contraponto à razão única, Rosenzweig expõe uma razão plural ex origine (a pluralidade não se refere a ‘fragmentos’ de uma razão única ‘des-construída’ ou implodida em seu roçar com a história: não se trata da razão única que se desarticula em microrrazões individuais e parciais, mas de uma pluralidade de razões com igual dignidade e igual antiguidade) ou, melhor expresso, de uma verdade que não subsume em si toda e qualquer possibilidade de o real ser verdadeiro e sim, antes, encontra-se com outra verdade, ao fim e ao cabo, após todas as circunvoluções racionais, tão verdadeira quanto ela mesma.” SOUZA, Ricardo Timm de. Crítica da razão idolátrica, p. 145.

[25] “Uma outra convalescença, em algumas circunstâncias ainda mais desejada por mim, está em auscultar ídolos… Há mais ídolos do que realidades no mundo: este é meu ‘mau olhar’ para este mundo, é também meu ‘mau ouvido’… Fazer perguntas com o martelo e talvez ouvir, como resposta, aquele célebre som oco que vem de vísceras infladas – que deleite para alguém que tem outros ouvidos por trás dos ouvidos – para mim, velho psicólogo e aliciador, antes o qual o que queria guardar silêncio tem de manifestar-se…” NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos, ou Como se filosofa com o martelo. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017, p. 7.

[26] “Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo. Mas leia-se este escrito. Talvez eu o tenha conseguido, talvez não tenha ele outro sentido senão expressar essa oposição de maneira feliz e afável. A última coisa que eu prometeria seria ‘melhorar’ a humanidade. Eu não construo novos ídolos; os velhos que aprendam o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (minha palavra para ‘ideais’) – isto sim é meu ofício. A realidade foi despojada de seu valor, seu sentido, sua veracidade, na medida em que se forjou um mundo ideal… O ‘mundo verdadeiro’ e o ‘mundo aparente’ – leia-se: o mundo forjado e a realidade… A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, através dela a humanidade mesma tornou-se mendaz e falsa até em seus instintos mais básicos – a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro.” NIETZSCHE, Friedrich. Ecce homo: como alguém se torna o que é. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 15-16.

[27] “Não passa de um preconceito moral que a verdade tenha mais valor que a aparência; é inclusive a suposição mais mal demonstrada que já houve. […] não existiria nenhuma vida, senão com base em avaliações e aparências perspectivas; e se alguém, com o virtuoso entusiasmo e a rudeza de tantos filósofos, quisesse abolir por inteiro o ‘mundo aparente’, bem, supondo que vocês pudessem fazê-lo – também da sua ‘verdade’ não restaria nada! Sim, pois o que nos obriga a supor que há uma oposição essencial entre ‘verdadeiro’ e ‘falso’? […] Por que não poderia o mundo que nos concerne – ser uma ficção? […] Não é permitido usar de alguma ironia em relação ao sujeito, como em relação ao predicado e objeto?” NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 39.

[28] NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira, p. 31.

[29] “Moral é apenas linguagem de signos, sintomatologia: é preciso saber antes de que se trata, para dela tirar proveito. […] Sempre que se quis ‘melhorar’ os homens: sobretudo a isso chamava-se moral. Mas sob a mesma palavra se escondem as tendências mais diversas. Tanto o amansamento da besta-homem como o cultivo de uma determinada espécie de homem foram chamados de ‘melhora’: somente esses termos zoológicos exprimem realidades – realidades, é certo, das quais o típico ‘melhorador’, o sacerdote, nada sabe – nada quer saber… Chamar a domesticação de um animal sua ‘melhora’ é, a nossos ouvidos, quase uma piada.” NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos, p. 40.

[30] “É um grave erro estudar as leis penais de um povo como se fossem expressão de seu caráter; as leis não revelam o que um povo é, mas o que lhe parece estranho, estrangeiro, singular, extraordinário. As leis se referem às exceções à moralidade dos costumes; e as penas mais duras atingem o que está conforme aos costumes do povo vizinho.” NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência, p. 82.

[31] BRAGA, Paula. A Linguagem em Nietzsche: as Palavras e os Pensamentos. Cad. Nietzsche, São Paulo, n. 14, 2003, p. 73.

[32] “[por meio de genealogia] a veneração dos monumentos torna-se paródia; o respeito às antigas continuidades torna-se dissociação sistemática; a crítica das injustiças do passado pela verdade que o homem detém hoje torna-se destruição do sujeito de conhecimento pela injustiça própria da vontade de saber.” FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In: ______. Microfísica do poder. Trad. Roberto Machado. 25. ed. São Paulo: Graal, 2012, p. 86.

[33] “há vários empregos possíveis para a palavra ‘sério’ e, consequentemente, vários sentidos para a ‘seriedade’. Creio que isso fique claro se considerarmos estas duas ocorrências: ‘Fulano de Tal é um homem sério’ e ‘Fulano de Tal leva a sério seu trabalho. Entre os dois empregos não há apenas o acréscimo de uma letra, mas uma mudança de perspectiva e de atenuação. Mudou o caráter da seriedade em suqestão. No primeiro caso queremos dizer que Fulano de Tal é um homem que zela pela seriedade das aparências. E respeitador das normas e convenções sociais. Seria incapaz de ‘sair da linha’. […] Na segunda ocorrência, a seriedade em questão remete-se a outra gama de significações. Levar a sério […] não consiste no zelo pela vigência de normas sociais. Ao contrário. O acento faz com que toda carga significativa recaia sobre o aspecto interno e virtualmente negador do socialmente admitido. Se levo a sério, isto é algo que sai de mim em direção ao objeto da seriedade. Se sou sério, me coisifico como objeto de seriedade. Aí está a diferença entre o que é dinâmico – eternamente em questão –, encontrado no a sério, e o caráter de coisa acabada e estéril da seriedade do sujeito objetificado. A sério, revigoro o mundo com uma quantidade imensa de significações. Sério, reduzo-me a objeto morto, caricato, de existir centrado no externo.” GOMES, Roberto. Crítica da razão tupiniquim. 13. ed. Curitiba: Criar, 2001, p. 13-14.

[34] BATAILLE, Georges. O Culpado. Trad. Fernando Scheibe. 1 ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017, p. 37.